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A várzea que funciona como esponja: como o Alto Tietê segura a água que inundaria São Paulo

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A várzea que funciona como esponja: como o Alto Tietê segura a água que inundaria São Paulo

Até a manhã de 14 de setembro de 2026, a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Mirante de Santana, na zona norte da capital, já tinha acumulado 253,8 milímetros de chuva, o triplo da média esperada para o mês inteiro. Com isso, setembro de 2026 superou o recorde de 1983, de 243,1 mm, e se tornou o setembro mais chuvoso da série iniciada em 1943, segundo o Inmet e a Agência SP. Chuvas assim testam toda a drenagem da região metropolitana e trazem de volta uma pergunta antiga: para onde vai a água que desce pelo Tietê? Parte da resposta está a leste da capital, numa faixa de terra plana e encharcada que atravessa o Alto Tietê. A relação entre a várzea do Tietê e as enchentes ajuda a explicar por que preservar esse trecho interessa também a quem mora em São Paulo.

A planície que pertence ao rio

Várzea é o nome da planície que o rio ocupa quando sobe além do leito. No caso do Tietê, a descrição oficial do governo paulista fala em uma área plana, com declividade média inferior a 5%, e largura entre 200 e 600 metros, que chega a mil metros em alguns pontos. São terrenos "sujeitos às inundações anuais do rio, na época das chuvas", segundo o Guia de Áreas Protegidas do Estado.

Em outras palavras, a várzea não é um terreno que alaga por acidente. Ela faz parte do sistema do rio e é para onde a água vai, naturalmente, quando o canal fica pequeno. O decreto estadual que regulamentou a APA Várzea do Rio Tietê, em 1998, reconhece essa função: a faixa mais próxima do rio, chamada de zona de cinturão meândrico, "tem por finalidade o controle das enchentes". Nela, novos loteamentos, indústrias, mineração, cemitérios e depósitos de lixo são vedados.

Como a esponja funciona

A imagem da esponja é uma simplificação, mas ajuda a entender três efeitos que acontecem ao mesmo tempo quando o Tietê transborda no Alto Tietê.

A água se espalha

Quando o volume de chuva excede a capacidade do leito, o rio extravasa para a planície. Em vez de seguir inteira pelo canal, a água se espalha por uma área larga e rasa, que funciona como um reservatório a céu aberto. Enquanto está ali, ela não está correndo em direção à capital.

A água desacelera

O Tietê é originalmente um rio meândrico, cheio de curvas. Em entrevista ao Jornal da USP em fevereiro de 2025, o professor Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da universidade, lembrou que esse tipo de rio "carrega uma grande quantidade de sedimentos e tem baixa velocidade de escoamento". As curvas alongam o caminho, o terreno quase plano reduz a inclinação, e a vegetação da várzea, do capim às árvores, cria atrito. Tudo isso faz a água andar mais devagar.

A água é devolvida aos poucos

Com o fim da chuva, o rio baixa e a várzea vai drenando de volta para o canal ao longo de horas ou dias. Parte da água também se infiltra no solo, evapora ou fica retida em brejos e lagoas. O resultado é que o volume que chegaria de uma vez é liberado em parcelas.

Pico mais baixo, pico mais tarde

Hidrólogos descrevem esse efeito como amortecimento de cheias. Se a mesma chuva caísse sobre um rio sem várzea, o volume de água chegaria rio abaixo rapidamente e concentrado, produzindo um pico alto. Com a várzea funcionando, o pico chega mais baixo e mais tarde, e a água se distribui ao longo de mais tempo. Para quem está a jusante, essa diferença pode separar uma cheia contida no canal de uma enchente nas ruas.

Por que isso protege a capital

O Tietê corre de leste para oeste: nasce em Salesópolis, passa por Biritiba Mirim, Mogi das Cruzes, Suzano, Poá e Itaquaquecetuba e só então entra na cidade de São Paulo. Toda cheia que se forma nas cabeceiras e no Alto Tietê precisa, cedo ou tarde, passar pelo trecho da capital.

E esse trecho não tem mais várzea para amortecer nada. Na cidade, o rio foi retificado, canalizado e espremido entre as pistas das marginais, que ocupam a antiga planície. O canal precisa dar conta sozinho do que chega. Para aumentar essa capacidade, o Estado aprofundou a calha do Tietê em cerca de 41 km, da Barragem da Penha até a Usina Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba. Na entrada da capital, a própria Barragem da Penha, inaugurada em 1983, controla a vazão que segue para o trecho canalizado; segundo o antigo DAEE, as comportas são fechadas quando o nível do rio abaixo da barragem chega à cota de 720 metros.

A calha mais funda, sozinha, não resolve. Quando lançaram o projeto do Parque Várzeas do Tietê, em julho de 2009, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo deixaram claro o papel da planície a montante: "Nas várzeas do Alto do Tietê serão formadas grandes piscinas naturais, que amortecerão as cheias e serão fundamentais para complementar o efeito das obras de aprofundamento da calha", informou a prefeitura na ocasião. O parque previa 75 km de extensão e 107 km² de área, passando por oito cidades, entre elas Poá e Suzano, e foi apresentado como o maior parque linear do mundo; apenas parte dele saiu do papel.

A lógica é de complementaridade. A calha aprofundada escoa mais rápido o que chega à capital; a várzea do Alto Tietê reduz e atrasa o que chega. Se a planície a montante fosse aterrada e ocupada, a água que se espalha por ela nas cheias chegaria de uma vez ao canal da cidade.

Piscinões: a várzea que a cidade teve de construir

Na região metropolitana, a urbanização fez o caminho inverso. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê resume o problema: onde antes a água "infiltrava e ficava retida em vegetação, copas de árvores, depressões no terreno", com a urbanização ela "passa a escoar rapidamente sobre superfícies de concreto". O mesmo texto lembra que a cidade cresceu ocupando os fundos de vale e que os rios foram retificados para abrir espaço ao sistema viário.

Para compensar, o Estado elaborou em 1998 o Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê, que indicou locais para os chamados piscinões. Segundo o Tribunal de Contas do Município de São Paulo, esses reservatórios acumulam temporariamente a água da chuva e a devolvem aos poucos à rede de drenagem. É exatamente o que a várzea faz de graça, com a diferença de que o piscinão exige terreno, obra de concreto, limpeza e manutenção permanentes.

Quando a esponja é ocupada

A esponja só funciona se estiver livre. O exemplo mais conhecido do contrário fica dentro da própria APA, na zona leste da capital. O Jardim Pantanal, que a Prefeitura de São Paulo identifica como área de APA, fica sobre a várzea do Tietê, foi ocupado de forma irregular a partir da década de 1980 e reúne, segundo estimativa citada pelo Jornal da USP, entre 45 mil e 50 mil pessoas. Ali, explicou o professor Côrtes, a área "mantém muitas de suas características naturais e dificulta o escoamento da água", e, uma vez acumulada no bairro, a água escoa de forma "extremamente lenta". O bairro voltou a enfrentar dias de alagamento em setembro de 2026, com as chuvas recordes.

O Alto Tietê também conhece esse risco. Em fevereiro de 2023, o DAEE atribuiu às chuvas intensas daquele verão as cheias registradas em Mogi das Cruzes, Suzano e Itaquaquecetuba. Onde a planície foi aterrada ou loteada, a água que ela deveria guardar encontra casas e ruas.

Poá e Suzano na faixa da APA

Poá e Suzano estão entre os 12 municípios da APA Várzea do Rio Tietê e, por isso, têm parte do território sujeita às suas regras. Para Poá, a cidade mais compacta da região, com cerca de 17 km² e mais de 100 mil moradores segundo o Guia de Poá, a questão é concreta. Em abril de 2023, durante reunião do Condemat com o DAEE sobre as cheias do Tietê, Poá formou grupo com Suzano, Ferraz de Vasconcelos e Itaquaquecetuba. Segundo a Prefeitura de Poá, o grupo pediu um reservatório de amortecimento de cheias entre os córregos Martinelli, Itaim, Paredão e Bela Vista, na divisa com Itaquaquecetuba, dentro da APA. A cidade também levou pedidos próprios: a limpeza do piscinão municipal, a atualização dos planos de micro e macrodrenagem da bacia e mais rapidez no desassoreamento do Tietê.

Desde fevereiro de 2024, Poá tem uma cadeira no conselho gestor da APA, ocupada pela secretária municipal de Meio Ambiente e Recursos Naturais, Claudete Canada. O conselho é o espaço em que prefeituras, Estado e sociedade civil discutem o uso da faixa protegida, o que inclui a pressão por ocupação nas margens.

O que mantém a esponja funcionando

Não há obra que substitua uma várzea livre, mas há atitudes que a preservam. As principais dependem de fiscalização e de escolhas locais:

A conta, no fim, é regional. Cada hectare de várzea preservado entre Salesópolis e Itaquaquecetuba é um pedaço de reservatório natural que trabalha nas cheias sem custo de construção, a favor tanto de quem mora perto do rio no Alto Tietê quanto de quem depende das marginais e dos bairros baixos da capital.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Por que a várzea do Alto Tietê ajuda a evitar enchentes em São Paulo?

Porque ela recebe o excesso de água quando o rio transborda, desacelera o escoamento e devolve a água aos poucos ao canal. Assim, o pico da cheia chega à capital mais baixo e mais tarde, aliviando a calha do Tietê.

A várzea preservada impede todas as enchentes?

Não. Ela reduz e atrasa as cheias do rio principal, mas não resolve alagamentos causados por chuva forte sobre áreas impermeabilizadas, córregos sobrecarregados ou bairros construídos na própria planície.

O que os piscinões têm a ver com a várzea?

Os piscinões acumulam temporariamente a água da chuva e a liberam aos poucos, como faz a várzea. O Plano Diretor de Macrodrenagem de 1998 indicou locais para esses reservatórios, que compensam, nas cidades, a perda de áreas naturais de retenção.

Poá está dentro da APA Várzea do Rio Tietê?

Sim. Poá é um dos 12 municípios da APA, criada pela Lei estadual nº 5.598, de 1987, e integra o conselho gestor da área desde fevereiro de 2024.

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