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O Tietê que São Paulo retificou e o que o Alto Tietê preservou: a história de duas margens

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O Tietê que São Paulo retificou e o que o Alto Tietê preservou: a história de duas margens

Numa calçada da Rua Porto Seguro, na capital, uma placa de bronze marca até onde a água chegou em 1929. A inscrição, "Nível da enchente de 1929", é um dos poucos registros físicos que restam de um tempo em que o Tietê, na cidade de São Paulo, ainda corria em curvas por uma planície larga que alagava todo verão. Quase um século depois, o rio da capital é outro: um canal reto, aprofundado, cercado por pistas de alta velocidade. A leste, no Alto Tietê, a história tomou outro rumo. Entender a retificação do Rio Tietê e o que aconteceu com a várzea nos dois trechos ajuda a explicar boa parte do que a região metropolitana vive a cada estação chuvosa.

Um rio de meandros infinitos

Antes das grandes obras, os rios paulistanos não tinham nada de retilíneos. Um texto da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo sobre a história das enchentes descreve o cenário: o Tamanduateí, o Tietê e o Pinheiros corriam por extensas planícies, e "seus leitos formavam desenhos sinuosos, de meandros infinitos". Na época das chuvas, os leitos transbordavam "e as várzeas se transformavam em vastas áreas alagadas".

Para a cidade que crescia no fim do século 19, essas várzeas eram vistas como um problema. Já recebiam esgoto e criação de animais e eram associadas a epidemias como a febre amarela e a febre tifoide. As primeiras intervenções vieram ainda no século 19, com a retificação do Tamanduateí. Em 1927, a companhia canadense Light obteve concessão para retificar, canalizar e inverter o curso do Pinheiros. O Tietê seria o próximo.

O plano de Saturnino de Brito

Em 1923, foi criada a Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê, dirigida pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, o nome mais conhecido do saneamento no país na época. O projeto que ele apresentou em 1924 previa canalizar o rio, retificar seu curso e abrir avenidas nas margens, mas também reservava 30% das áreas de várzea para parques e criava dois lagos artificiais para reter a água das cheias, uma espécie de piscinão antes do nome existir. Os estudos da comissão calcularam que a retificação encurtaria o trajeto do rio na cidade em cerca de 20 quilômetros, dos sinuosos 46 km para cerca de 25 km.

O plano de Saturnino não foi executado como desenhado. Na segunda metade dos anos 1920, a chefia da comissão passou ao engenheiro João Florence de Ulhôa Cintra, parceiro de Francisco Prestes Maia na formulação do chamado Plano de Avenidas. Em 1930, Prestes Maia apresentou o "Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo", que organizava a cidade em torno de grandes eixos viários. Nesse desenho, as margens do Tietê e do Pinheiros deixavam de ser parques para virar vias expressas.

1929, a cheia que virou argumento

Entre o plano e as obras, veio a enchente. Em fevereiro de 1929, o Tietê transbordou e alagou bairros como Vila Guilherme e Mooca; reportagens da época relataram que o rio havia transbordado cerca de 2 metros. A cheia é lembrada como uma das maiores da história da cidade e reforçou a pressão por intervenções. A placa da Rua Porto Seguro é herança desse episódio.

Avenidas no lugar de parques

A retificação do Tietê saiu do papel com Prestes Maia na prefeitura, que ele ocupou entre 1938 e 1945. As obras ganharam ritmo nos anos 1940 e se estenderam até a década de 1960. O rio ganhou leito novo, reto e mais curto, e as antigas curvas foram, em grande parte, aterradas.

Em seguida vieram as marginais. A construção das Marginais Tietê e Pinheiros começou em 1950; o primeiro trecho foi inaugurado em 1957, e o último, entre o Aricanduva e Guarulhos, só ficou pronto em 1977. A Marginal Tietê tem 24,5 km de extensão. Dos elementos do plano de Saturnino, sobreviveram as avenidas. Os parques na várzea e os lagos de retenção não foram construídos.

A planície liberada pelo rio retificado foi ocupada por indústrias, pátios, loteamentos e pelo próprio sistema viário. Na síntese do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, a urbanização da região "sempre priorizou o sistema viário" e se valeu dos fundos de vale, "ou seja, das várzeas dos rios", enquanto as calhas eram retificadas para dar eficiência às vias.

O preço de ocupar a várzea

Tirar a várzea do rio não tirou a água. O que antes se espalhava pela planície passou a depender inteiramente do canal, que em chuvas fortes não dava conta. A Marginal alagada virou imagem recorrente dos verões paulistanos, e o poder público passou décadas construindo, com concreto, o espaço que a várzea oferecia.

As respostas foram se somando:

Cada uma dessas obras tenta devolver ao sistema uma capacidade que a várzea tinha naturalmente: guardar água por um tempo e soltá-la aos poucos.

Enquanto isso, a montante

Nos anos 1970, o próprio Estado começou a mudar a abordagem. O Parque Ecológico do Tietê, criado pelo Decreto estadual nº 7.868, de 30 de abril de 1976, e inaugurado em 14 de março de 1982, na zona leste da capital, na divisa com Guarulhos, nasceu no contexto do combate às inundações. O histórico do parque registra a intenção de "manter a capacidade de amortecimento das cheias, nas várzeas do Tietê, entre Guarulhos e Ponte Nova", para que não se repetisse ali o erro cometido entre Guarulhos e Osasco, onde a urbanização e as vias marginais "oprimem o rio".

A virada ganhou força de lei em 1987. A Lei estadual nº 5.598, de 6 de fevereiro de 1987, declarou área de proteção ambiental a faixa do Tietê em 12 municípios, de Salesópolis a Santana de Parnaíba, passando por Biritiba Mirim, Mogi das Cruzes, Suzano, Poá e Itaquaquecetuba. O decreto que a regulamentou, em 1998, deixou explícito o objetivo de controlar a ocupação das várzeas "de forma a minimizar o fenômeno das enchentes" e vedou, na faixa mais próxima do rio, loteamentos, indústrias, mineração, cemitérios e depósitos de lixo.

No Alto Tietê, onde a urbanização chegou mais tarde e com menos intensidade às margens, isso significou manter livre boa parte de uma planície que na capital já não existia. Em 2009, ao lançar o projeto do Parque Várzeas do Tietê, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo resumiram o papel dessa faixa: "Nas várzeas do Alto do Tietê serão formadas grandes piscinas naturais, que amortecerão as cheias e serão fundamentais para complementar o efeito das obras de aprofundamento da calha".

Duas margens, duas lições

A comparação entre os dois trechos mostra escolhas opostas. Na capital, o rio foi encurtado, canalizado e cercado de pistas; a planície virou cidade, e o controle das cheias passou a depender de calha, barragem e piscinões. No Alto Tietê, boa parte da várzea continua livre e cumpre, sem custo de obra, o papel de reservatório natural para toda a região a jusante, inclusive a capital.

Isso não quer dizer que o trecho preservado esteja fora de risco. Dentro da própria APA, na zona leste paulistana, o Jardim Pantanal foi ocupado de forma irregular a partir dos anos 1980 e reúne entre 45 mil e 50 mil moradores, segundo estimativa citada pelo Jornal da USP em fevereiro de 2025. O bairro, identificado pela Prefeitura de São Paulo como área de APA, voltou a alagar por dias em setembro de 2026, mês que o Inmet registrou como o setembro mais chuvoso na capital desde o início da série, em 1943.

Nas cidades do Alto Tietê, a pressão também existe. Em abril de 2023, Poá, Suzano, Ferraz de Vasconcelos e Itaquaquecetuba pediram ao DAEE, em reunião do Condemat, um reservatório de amortecimento de cheias entre córregos da divisa com Itaquaquecetuba, dentro da APA, segundo a Prefeitura de Poá. Desde fevereiro de 2024, Poá tem cadeira no conselho gestor da APA, o fórum em que Estado, prefeituras e sociedade civil discutem o uso da faixa protegida.

A lição que a capital aprendeu a um custo alto está escrita na placa da Rua Porto Seguro e no investimento de mais de R$ 1 bilhão numa única etapa da calha: a várzea é parte do rio. No Alto Tietê, ela ainda está lá.

Fontes e referências

Perguntas frequentes

Quando o Rio Tietê foi retificado em São Paulo?

O plano de Saturnino de Brito é de 1924, mas as obras de retificação só ganharam ritmo nos anos 1940, com Prestes Maia na prefeitura, e se estenderam até a década de 1960. As marginais foram construídas entre 1950 e 1977.

Quanto o Tietê encolheu com a retificação?

Os estudos da Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê calcularam que o trajeto do rio na cidade cairia de 46 km, com curvas, para cerca de 25 km em linha mais reta.

Por que a Marginal Tietê alaga?

Porque foi construída sobre a antiga várzea, a planície que o rio ocupava nas cheias. Sem esse espaço, toda a água depende do canal, e em chuvas muito fortes a capacidade dele é superada, mesmo após o aprofundamento da calha.

O que a APA Várzea do Rio Tietê tem a ver com essa história?

Criada em 1987, a APA protege a várzea ao longo do rio em 12 municípios e veda na faixa mais próxima do rio usos como loteamentos e indústrias. Com isso, o Estado buscou evitar que o Alto Tietê repetisse a ocupação da planície feita na capital.

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